segunda-feira, 30 de abril de 2012

"Entre Gigantes"


Entre Gigantes
Alec Silva


Os olhos castanhos fitaram o oponente. Foi um olhar analítico o suficiente para deduzir os pontos fracos e fortes, altura, peso e força. A seguir se moveu agilmente para o lado, desviando-se da clava que se chocou com o chão, levantando poeira; aproveitou o impulso e empunhou a espada, roçando a sua ponta no solo arenoso, e usando a arma como apoio. Recuperou-se imediatamente da manobra evasiva e desferiu um golpe na coxa esquerda do adversário, forçando-o a curvar o corpo. Outro movimento preciso e a lâmina atravessou a garganta do inimigo, findando o confronto.
Enquanto o gigante se debatia, tentando conter a hemorragia, e vomitava sangue, a guerreira ergueu o olhar, agradecendo aos deuses pela vitória obtida. O metal ainda reluzia e gotejava o líquido rubro e precioso de sua vítima. Ela andou calmamente para perto de seu cavalo, a guarda um pouco desprotegida. Não havia sido uma luta muito difícil, contudo lutar com gigantes sempre era cansativo, pois lhe obrigava a manejar a Nykh com mais energia vital do que o comumente exigido.
Aquele princípio de manhã tinha o vento ameno e os ares estranhamente densos, típicos de perigos iminentes.
A viajante solitária pegou um trapo para limpar a espada quando um urro alto cortou o ar, ecoando pelo desfiladeiro. Ela se virou para trás e viu uma criatura de estatura descomunal sair das trevas de uma caverna, portando duas foices enormes e de corte enferrujado ― nem por isso letais ―, ora ou outra roçando a ponta de uma delas no chão, enquanto avançava em passos largos e firmes, sem pressa.
O novo oponente correu o olhar avermelhado para o parente morto, jazido numa poça de sangue, resmungando. Voltou-se para a assassina, vociferando:
― Como ousa matar meu irmão, meu único irmão? Pagará com o mesmo valor, desgraçada!
A guerreira arfou, afastando-se do cavalo. Não queria pô-lo em risco num combate. E começava a se arrepender por ter resolvido aquele atalho.
― Ele me atacou primeiro! ― gritou ela, ciente de que se justificar seria em vão. ― Apenas me defendi!
― Dane-se! Ninguém fere um irmão de um nefilin e fica impune!
O gigante bateu ambas as foices uma na outra, produzindo sons irritantes e algumas míseras faíscas. Rangeu os dentes e urrou, encarando aquela humana de cabelos loiros e ondulados, pele branca, em contraste com a armadura enegrecida que usava, e aparência tão serena. Não acreditava que seu irmão tivesse sucumbido sob a lâmina de alguém tão inferior quanto um ser humano ― e ainda mais sendo uma fêmea! Era inaceitável para seu orgulho.
Ele aumentou o ritmo de suas passadas bruscamente, jogando os braços para frente, causando estragos no ponto em que a mulher estava há pouco. Não se deixou ser vencido pelo mesmo truque que derrubara o irmão; girou o corpo rapidamente, desferindo um tapa que acertou o ombro esquerdo da guerreira, lançando-a a metros de distância.
A queda fora violenta, fazendo a viajante gemer de dor. Tentou se levantar, mas sentiu um peso insuportavelmente dolorido no ombro, voltando a cair. Ouvia os passos calmos e potentes do nefilin se aproximando, os metais enferrujados se chocando. Precisava pensar logo ou o seu destino seria ser estraçalhada por um indivíduo da raça desprezível de gigantes de pele alva e ascendência humana e demoníaca. Pelo menos tinha a poderosa Nykh em punho...
Quando o inimigo colossal tentou lhe perfurar a cabeça, ela se desviou como pôde e conseguiu decepar a mão direita do maldito, que praguejou e se afastou instintivamente, contendo o sangramento que jorrava em grande abundância da ferida recente.
A mulher aproveitou a oportunidade, arrastando-se um pouco e se pondo em pé com dificuldade, tendo a espada como auxílio. O ombro doía terrivelmente, alertando sobre o deslocamento de algum osso ― ou vários deles. Não deveria ter ousado repetir a mesma façanha num mesmo dia.
O nefilin a atacou novamente, com a arma que ainda lhe restava, num movimento que almejava a sua cabeça; o outro braço sangrava em abundância, espirrando para todos os lados, molhando o solo e a sua adversária.
A guerreira se abaixou um pouco, livrando-se de perder a cabeça, porém sentindo a lâmina da arma fazer um movimento no ar. Tentou desferir um ataque no punho do inimigo, sem obter êxito algum, quase caindo.
O monstro chutou o ar, almejando o corpo da humana que tanto o humilhava. Não obteve resultado positivo; apenas um ferimento mortal que lhe cortou os ligamentos do joelho, obrigando-o a se curvar, quase engatilhar.
Reunindo forças, mas contente com o golpe bem sucedido, a mulher o escalou, ficando sobre suas costas, e cravou a lâmina da Nykh na nuca dele, introduzindo-a até quase enterrar o cabo, atingindo o cérebro, derrotando-o. Nem teve pressa de sair dali, afinal tanto movimento e tanta energia usada no combate haviam piorado a situação de seu ombro; agora sentia todo o corpo dolorido, incapacitado de se mover.
Permaneceu sentada sobre o cadáver do oponente vencido por horas, suportando o sol escaldante, o odor putrefato exalado pelo corpo morto devido ao calor, a sede, a fome, o suor a arder as feridas... Não eram aquelas coisas que a venceriam.
Lembrou-se dos anos de treinamento, em terras distantes, dos castigos sofridos para aprender a ter disciplina. Não tivera aquilo que se conhecia como infância ou adolescência, tudo em nome de motivos aos quais pouco se orgulhava. Havia aprendido a arte de matar com grande destaque, de todas as formas, de espadas a adagas, de paralisantes a venenos letais. Tornara-se uma assassina perfeita, uma guerreira dotada de beleza e agilidade.
Quando percebera que seria capaz de se mover, levantou-se, desenterrando a lâmina da Nykh do crânio do cadáver; o suor escorria pelo rosto e pelo busto; na verdade, todo o corpo estava molhado e pegajoso. O ombro ainda doía, contudo um bom curandeiro logo daria jeito naquilo mediante uma quantia generosa. Poderia cavalgar normalmente, desde que o cavalo fosse num trote sossegado.
Caminhou até sua montaria, que se recostara sob uma sombra, aguardando a sua amazona. Pegou o cantil e tomou um gole demorado; a seguir pegou um pano velho e limpou a espada, usando um pouco de água e areia para ajudar a tirar os vestígios de sangue e miolos. Quando a limpou, guardou-a na bainha presa às costas e montou o animal, que já estava pronto para retornar a viagem.
O restante da jornada fora tranquila.
Parara apenas quando passara perto de um rio de águas cristalinas. Descera do cavalo e despira-se, cuidando de manter algumas adagas e a espada perto da margem, ao seu alcance. Lavou-se demoradamente, livrando-se do sangue e do suor, das impurezas daquela manhã tão intensa. O ombro esquerdo estava inchado e com coloração arroxeada, mas era um hematoma como tantos outros.
Vestiu-se com uma túnica leve e esvoaçante, sentou-se numa enorme pedra marginal e comeu algumas frutas, pães e bolos trazidos da última vila que estivera. Bebeu um pouco de vinho diluído à água, sem pressa. Deu algumas frutas ao cavalo, que pastava ali perto. Por fim, encheu os cantis.
Contemplou-se no reflexo aquático: uma mulher ainda jovem, serena, com um olhar cheio de brilho, contudo entristecido, lábios médios, que às vezes ostentava um sorriso enigmático, e pele branca. Seria facilmente confundida com uma filha de algum nobre ― talvez até com uma princesa ―, entretanto era uma forasteira, uma andarilha em busca de justiça e vingança, uma bela assassina de cabelos dourados.
Era, para quem conhecia a sua reputação, a senhora da espada com lâmina forjada com metal vindo do céu, sangue de dragões e lágrimas de elfos. Ou simplesmente Vannora.

NOTA: Personagem inspirada em Verônica S. Freitas. 

3 comentários:

Beronique disse...

Ficou Ótimo, Alec, bem escrito, ligeiro e palpavel! Muito obrigada pelo trabalho, como disse, além da semelhança fisica,você também arrasou nos traços psicologicos semelhantes, e olha que descobriu sozinho hein, nem precisei falar nada, rsrs. Parabéns! Adorei!

Bjoss!

Re-animator's House disse...

Bacana , Alec.

Alec Silva disse...

Obrigado, Verônica e Re-animator's House!

Apenas me inspirei numa pessoa simpática e talentosa, que me autorizou fazê-la uma personagem. Tive somente de bolar a ideia do conto.

rs

Grande abraço a todos.

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